Valor Econômico
21/12/2012
Falta de encomendas complica situação da Aeromot

Por Virgínia Silveira | Para o Valor, de São José dos Campos

Com uma dívida de R$ 10 milhões e em processo de recuperação judicial, a gaúcha Aeromot está sem contratos relevantes, o que aprofunda ainda mais sua crise e aumenta o risco de fechamento da companhia. Ela é fornecedora da Embraer e da Força Aérea Brasileira (FAB) há mais de 40 anos.

Aos 81 anos, o presidente da Aeromot, Cláudio Barreto Viana, considerado um precursor do setor aeronáutico no Rio Grande do Sul, afirma que está empenhado para que a empresa, enquadrada como estratégica pela Aeronáutica, não tenha um fim melancólico.

A crise na Aeromot, segundo o empresário, se agravou nos últimos dois anos com a desvalorização cambial, que reduziu a receita de exportações do motoplanador Ximango, além da perda de clientes. A aeronave possui 170 unidades em operação no mundo e chegou a ser exportada para 16 países.

A despeito dos problemas enfrentados pela crise, o presidente da Aeromot explica que a campanha de vendas do Ximango continua ativa. "Temos acordo com a China National Guizhou Aviation Industry (Gaic) para produzir o motoplanador naquele país." Nos últimos oito meses, segundo ele, 25 funcionários da empresa chinesa receberam treinamento no Brasil. O modelo é destinado a escola de formação de pilotos chineses.

No começo deste ano, a NASA (Agência Espacial Americana) utilizou um Ximango, empregado pela Força Aérea dos EUA (Usaf) no treinamento de pilotos, para uma pesquisa sobre aviões elétricos. "A Aeromot colabora com a pesquisa através do fornecimento de dados de engenharia que permitam substituir com segurança os tanques atuais da aeronave, localizados na asas, por baterias elétricas", explicou Viana.

A Aeromot sobrevive com pequenos contratos de fornecimento de peças para sua antiga coligada, a Aeroeletrônica, vendida em 2005 para o grupo Elbit, de Israel e hoje parte do grupo Embraer Defesa.

A empresa, que chegou a ter três unidades de negócios (manutenção, reparo e revisão aeronáutica; sistemas eletrônicos de defesa; e fabricação de aeronaves), está concentrado hoje apenas na atividade de produção dos aviões Ximango e do treinador monomotor Guri, além de projetos especiais.

No caso do Guri, usado no treinamento básico de pilotos, o mercado alvo, segundo Viana, são os aeroclubes e as Forças Armadas. O antigo Departamento de Aviação Civil (DAC), substituído pela Anac, adquiriu 20 unidades do Guri, em 2005, por R$ 8 milhões, mas o plano que previa a compra de novas unidades não foi adiante.

"Os aeroclubes perderam a função social, de prover a formação de pilotos a um baixo custo. Cerca de 90% dos pilotos da Varig e da Vasp no passado foram formados nos aeroclubes", afirmou Viana.

Até meados deste ano, a Aeromot tinha a expectativa de retomar o fôlego financeiro com o programa de desenvolvimento do cargueiro militar KC-390, a cargo da Embraer. A empresa, no entanto, perdeu a concorrência para fornecer os bancos e as macas da aeronave para a brasileira LH Colus, de São José dos Campos.

Sobre as dificuldades financeiras enfrentadas pela Aeromot, a Aeronáutica preferiu não emitir opinião. A Embraer também não respondeu se o processo de recuperação judicial da Aeromot influenciou na decisão de escolha de outro fornecedor para o KC-390.

O último contrato da Aeromot com a Embraer, de acordo com Viana, foi encerrado há cerca de um ano. A empresa fornecia peças para o avião agrícola Ipanema.

Atualmente, a Aeromot, que já empregou mais de 100 funcionários, conta com apenas oito empregados. Nos bons tempos da empresa, em que fornecia para praticamente todos os programas da Embraer (AMX, Tucano, Bandeirante e Brasília), a Boeing e a Airbus, seu faturamento girava em torno de R$ 10 milhões por ano.

"Temos um número pequeno de colaboradores para reduzir nossos custos fixos, mas trabalhamos com 60 empresas satélites na parte de fabricação, usinagem e solda, criadas por ex funcionários da Aeromot, e que nos atende quando temos algum projeto", explicou.


Jornal Zero Hora - 27/09/2009
UMA CARREIRA PARA DECOLAR
Mercado nas alturas
Quantidade de profissionais capacitados não acompanha o crescimento do tráfego aéreo no país. O apagão de pilotos levou a Anac a custear aulas práticas em diferentes regiões.

Pilotos e outras profissões relacionadas à aviação podem garantir o seu embarque no mercado de trabalho. O tráfego aéreo de passageiros cresceu 6,5% apenas no primeiro semestre deste ano ante o mesmo período de 2008, de acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), abrindo portas para muitas vagas.

Atualmente, são mais de 12 mil aeronaves – incluindo aviões e helicópteros civis de todas as categorias – responsáveis por transportar mais de 50 milhões de pessoas por ano no país. Mas na contramão do crescimento, faltam profissionais qualificados dispostos a seguir carreira, em terra e no ar, apontam especialistas do setor.

– Há carência principalmente de pilotos com experiência. Muitos, após a paralisação das atividades da Vasp, Transbrasil, Varig, Rio Sul, Nordeste e BRA, optaram por trabalhar no Exterior, onde salários e benefícios são mais atrativos – explica Graziella Baggio, presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas.

Juliano Noman, superintendente de Serviços Aéreos da Anac, discorda. Para ele, o problema não é a falta de mão de obra, mas a dificuldade de formar gente em um curto prazo.

– Temos profissionais suficientes. Mas precisamos treinar pessoas para suportar o crescimento que esperamos para os próximos anos – pondera o superintendente.

De acordo com Noman, é possível formar técnicos entre 12 meses e 18 meses. Porém, fazer com que a carreira decole no setor da aviação nem sempre é tarefa fácil de ser executada. Os cursos são caros para todos os cargos, argumenta Graziella:

– O investimento no aprendizado é alto. E os salários não atraem mais.

Investimento na formação é expressivo

Luiz Augusto Jaborandy, 23 anos, confirma que o retorno do alto investimento para começar a carreira muitas vezes só começa a aparecer a partir do terceiro ano de profissão, como estimam também os especialistas. Em 2007, acompanhando o pai, piloto militar em viagem aos Estados Unidos, conquistou as habilitações americanas de piloto privado, privado de helicóptero, voo por instrumento, comercial (de linhas áreas e táxi aéreo) e bimotor.

– É um diferencial para a carreira. O inglês é valorizado, principalmente a linguagem técnica. Sem contar a experiência adquirida em aviões cuja tecnologia é muitas vezes superior à nossa – avalia Jaborandy

De volta a Brasília há seis meses, o estudante do curso superior de aviação civil comemora a aprovação da experiência pela Anac. Isso porque, para validar a formação americana no Brasil, ele passou por provas teóricas e práticas elaboradas pelo órgão.